Mitomania: quando mentir é uma doença

Por Dra. Júlia Machado- Psicologa

Todas as pessoas já mentiram uma vez na vida. E até há um dia (1 de abril) em que isso é notícia, mas o que fazer quando estamos perante alguém que mente compulsivamente?

Mitomania: mentir é doença

A mentira pode ser considerada uma patologia e tem um nome: mitomania. Neste quadro clínico inserem-se as pessoas que contam mentiras compulsivamente. De acordo com Júlia Machado, “este tipo de comportamento é causado por um transtorno/perturbação psicológico/a.

A diferença é que, neste caso, existe uma eventual simulação, omissão ou distorção da verdade que normalmente é praticada por indivíduos saudáveis”. A frequência é o principal sinal de alarme deste problema ao qual deve estar atento. “O mais importante é identificar e reconhecer a mentira como um hábito patológico. A mentira excessiva é um sintoma comum de diversas doenças mentais”, realça.

Mentir, porquê?

Existem várias razões que podem levar uma pessoa a transformar a mentira numa forma de estar na vida. Uma das principais é a necessidade de atenção ou de reconhecimento por parte dos outros, por vezes com o desejo implícito de tirar partido. “Sabe-se que as principais causas da mentira patológica são decorrentes de traços da personalidade, problemas nas relações familiares e experiências stressantes ou traumáticas”.

Por exemplo, “pessoas que sofrem de transtorno/perturbação da personalidade antissocial normalmente mentem para se beneficiar  dos outros. Alguns indivíduos com transtorno/perturbação de personalidade borderline podem mentir para chamar a atenção, alegando que eles foram mal tratados ou pressionados.”

Principais consequências

As repercussões negativas que a mentira pode ter a nível familiar e social são inquestionáveis. A falta de confiança destrói amizades e relacionamentos e “se a doença continua a progredir, a mentira pode tornar-se tão grave que eventualmente pode causar problemas de ordem social, psicológica e até legal”, alerta a psicóloga. A exclusão é frequente nestas situações, contudo são precisamente as pessoas que rodeiam o mitómano que o podem ajudar.

“Devem fomentar-se sempre comportamentos e atitudes verdadeiras, valorizando-as e, por outro lado, desvalorizar sempre que a pessoa tiver relatos falsos”, aconselha a psicóloga, apesar de admitir que “é difícil estar com a pessoa que tem este transtorno. Devemos sempre incentivá-la a pedir ajuda, a fim de que ela possa reconhecer que está a ter consequências negativas na sua vida”.

Como tratar

O diagnóstico da mitomania pode ser feito pelo médico psiquiatra ou psicoterapeuta após uma avaliação psicológica. Na maioria dos casos, “o tratamento envolve acompanhamento psicológico e em pessoas que também apresentem outros quadros psiquiátricos (depressão ou ansiedade) o uso de psicofármacos poderá ser recomendado”.

Mudar de atitude

O objetivo principal do médico ou psicólogo é conseguir que a pessoa reconheça “os prejuízos que o seu comportamento pode trazer para si e para terceiros e que queira mudá-lo”, frisa Júlia Machado. Neste ponto, a psicoterapia parece ser um dos métodos mais eficazes pois, como defende a psicóloga: “Ajuda o indivíduo a desenvolver novos comportamentos e hábitos, reforçando relatos verdadeiros e ignorando relatos falsos. Neste contexto trabalha-se a extinção deste hábito disfuncional”.

Ocultar a verdade é normal na infância, muitas vezes fruto da imaturidade. Como explica Júlia Machado, “muitas crianças têm dificuldade de enfrentar frustrações e críticas, e acabam por mentir aos pais na tentativa de preservar a autoestima. Essa característica só se torna patológica quando a criança adota um comportamento persistente de mentir (mitomania) e constata que a sua mentira pode ser entendida como verdade sem nenhuma consequência negativa associada.”

A mentira pode ainda proporcionar uma sensação de prazer e poder que pode levar a acentuar este comportamento. “À medida que os amigos acreditam, a criança começa a contar cada vez mais histórias mais incríveis, assumindo a mentira como uma repetição constante na sua vida, sem finalidade específica”, descreve. Baixa-auto estima, supervalorização das crenças, não enfrentamento da angústia ou frustração associada a uma situação, são as principais causas deste tipo de transtorno, segundo a psicóloga.

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